Sutilezas do “Primeiro Amor”

A igreja de Éfeso

Jornal Lagoa News

 Sutilezas do “Primeiro Amor”

A expressão abandonar o “primeiro amor” aparece em Apocalipse 2:4, onde Jesus Cristo diz em uma carta destinada à igreja de Éfeso: “Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor”. Vejamos o que isso significa.

Inicialmente, o Mestre preconiza elogios a essa igreja com um sucinto pronunciamento acerca da altivez nas lides entre os irmãos; fala da sua constância e forte aversão contra falsos apóstolos que sorrateiramente se infiltraram entre eles (Apocalipse 2:2-3). Deste modo, é notório que se trata de uma igreja amada por Jesus.  Todavia, é manifesto que aquela igreja apresentava alguns problemas de ordem espiritual (Koinonia). Jesus aponta que o núcleo do problema que imperava entre os efésios era o abandono do “primeiro amor”.
O ápice das palavras de Cristo na missiva é transcendente, pois cinge-se ao convite auspicioso: “… arrepende-te, e pratica as primeiras obras” (verso 5, pp). A esperança do retorno ao aquecimento espiritual, reacender as chamas vivas da tocha da salvação é inegavelmente precioso aos olhos daquEle  que no madeiro verteu o sangue carmesim no sacrifício salvífico.
Éfeso não é, em essência, a primeira igreja? Notai, pois, que o Senhor Jesus dirigiu-Se primeiramente a essa congregação. Foi durante uma visita que o “apóstolo dos gentios” (Efésios 3:1; Atos 13:47; 26:16-18) fez à cidade dos efésios que ele fundou àquela igreja deixando-a, inicialmente, sob a liderança espiritual dos cooperadores Priscila e Áquila e depois sob o ministério do eloquente Apolo (Atos 18:19-28), até que Paulo voltasse e cumprisse seu ministério apostólico por um período de três anos na igreja efesiana.
Esse regresso ao “primeiro amor” que Cristo mostra a João nas visões da ilha de Patmos no Mar Egeu (90-96 d.C), está nos lábios dos cristãos contemporâneos, nas letras dos inumeráveis louvores de todas as instituições cristãs, em todas as premissas da fé e convites da comunhão com Deus. Porém, qual é o significado teológico-cristocêntrico dessa locução escriturística? Quem deve, pois, retornar ao “primeiro amor”?
  1. Aqueles que saíram da igreja, que abandonaram a fé?
  2. Aqueles que mesmo frequentando o templo com assiduidade, mesmo assim, não se conduzem dignamente na prática do amor aos semelhantes?
  3. Ou ambos?
Levanto aqui algumas características importantes desse “primeiro amor” (Apocalipse 2:4) como a submissão (Mateus 20:28), por exemplo, evidenciando o amor sacrificial (João 15:13), fervoroso (Efésios 5:2), desejoso de estar junto uns com os outros (Tito 2:14); e a efetiva comunhão com Deus na unidade da igreja (I João 1:7).
Muitos imaginam quem perdeu o primeiro amor é aquele que não está mais na comunhão da igreja. Teologicamente, deve-se inquirir: É esse o preceito bíblico? Quer queira quer não, o Espírito Santo que inspirou João, “o apóstolo do amor” (João 13:23), apontava para os crentes da igreja de Éfeso que compunham a membresia, cujos nomes estavam no rol de membros e até participavam da cerimônia do lava pés e da santa ceia; porém, se afastaram do amor que deveriam consagrar aos seus semelhantes desde há muito tempo; mesmo participando dos programas congregacionais se esfriaram na fé porque eram perseguidores dos seus próprios irmãos, disputavam cargos dentro da igreja, arreliavam-se por questões que somente Deus teria o direito de aquilatar. Esses estão inseridos na inspiração escriturística contida em Apocalipse, in verbis:
Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca” (Apocalipse 3:15-16 – ACF).
No contexto da descrição das sete igrejas mencionadas nos capítulos de 1 a 3 do Livro das Profecias Finais (Apocalipse), há uma conexão hermenêutica e exegética entre a igreja do “primeiro amor” (Éfeso) e a sétima e “última igreja” (Laodicéia) da Ásia Menor (hoje correspondente à parte ocidental da Turquia), a qual representa a igreja dos últimos dias na terra que atravessou todos os embates do tempo, açambarcou lutas renhidas e intempéries; no entanto, apresenta-se reprovada e necessita de um genuíno e urgente conserto antes da volta de Jesus.
Todos aqueles que se uniram a igreja, em sã consciência, se arrependeram das antigas práticas; abandonaram “o velho homem” (I Timóteo 5:8; II Coríntios 5:17; Romanos 6:6). Entretanto, sem qualquer demérito aos fiéis observadores da infalível Palavra de Deus, Satanás tem trabalhado no coração da membresia da igreja, em especial, e com ênfase, nos mais antigos, àqueles que possuem o status de “evidência”, “respeito”, “exemplo” e “admiração”, para destruir as bases do mandamento do amor cristão: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Romanos 12:10). Perdoem-me a franqueza teológico-escriturística: é bíblico que o amor de muitos que estão assentados nos bancos da igreja já se esfriou há muito tempo, pois suas faltas e pecados são evidentes; contudo, se esbaldam cobrando santidade dos seus semelhantes como se o sacrifício salvífico do Filho de Deus fosse em vão. Eis aqui, portanto, o esfriamento do “primeiro amor” em evidência, portas adentro da igreja, dentro do coração dos “fiéis”.
Os lastimáveis escândalos avultam-se inexoravelmente abarcando líderes e membros de igrejas, no interior das mais tradicionais denominações. Nessa estratégia, o arqui-inimigo das Sagradas Escrituras causa um grau de descrédito sem precedentes no bojo das instituições cristãs e, quiçá, nos próprios frequentadores do templo. As idéias pragmáticas, de escopo hedonista, utilitarista e outros ideários análogos, têm culminado no abandono dos princípios escriturísticos.

Qual é, pois, a igreja que perdeu o “primeiro amor”?  Não é a igreja cristocêntrica (que se afastou da “paixão” por Jesus Cristo e parece ter se esfriado, perdido o avivamento espiritual), desanimada do relacionamento em aspectos importantes e essenciais? Isso parece ser verdade, pois Jesus chega a considerar tais coisas como uma queda, solicitando que houvesse arrependimento, mudança de postura e um retorno as atitudes do começo desse relacionamento (primeiras obras): “Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas” (Apocalipse 2:5).
Sempre foi e sempre será antibíblico, pelo menos até a volta de Cristo, cobrar responsabilidades daqueles que já não estão mais no seio da igreja, que se apartaram do aprisco, que abandonaram a fé; ou que, de repente, estejam congregando em outros ministérios eclesiásticos; quem sabe, até mesmo desvencilhados de qualquer sistema congregacional-doutrinário, pois é provável que muitos que não estejam congregando em templos cristãos, de repente, estejam mantendo comunhão pessoal com Cristo. Isto é bíblico e inegável (Mateus 18:20). Eis que a salvação está ao alcance de todos os credos e todas as criaturas. O apóstolo Paulo, inspirado pelo Espírito do Senhor, registrou: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham, assim, os tempos de refrigério pela presença do Senhor” (Atos 3:19). O convite de arrependimento e conversão dos maus caminhos, das práticas pecaminosas, é extensivo somente àqueles que se apartaram do aprisco ou aplica-se, também, àqueles cujos nomes estão escritos no rol de membros da igreja?
Não serão surpreendidos os salvos no Céu ao se depararem com pentecostais, budistas, candomblecistas, espíritas, hinduístas, islamitas, autoridades papais, entre muitas outras religiões mundiais, que também galgaram os portais das mansões celestiais?  Qual é, por conseguinte, o conselho divino diante de todas e quaisquer circunstâncias? O Filho de Deus apresentou-Se aos seres humanos, frágeis pecadores, para quebrar o jugo da inconstante falta de amor ao próximo. No sermão da montanha, no ápice do desamor entre as criaturas, Jesus Cristo bradou:
Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós. E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão” (Mateus 7:1-5).
O pressuposto do tema em epígrafe, além do sentido teológico, caminha na direção cristocêntrica, não como um axioma de construção de relacionamentos nos moldes da pedagogia de Cristo somente; também, e sobre tudo, no conceito da unidade da igreja na abrangência espiritual, moral, ética e humanística. Tudo que o crente necessita para uma vida cristã abençoada e feliz encontra-se na inerrante Palavra de Deus, sem as especulações e os devaneios dos teólogos modernos e do complexo sistema doutrinário que impera nas religiões e seitas radicadas no mundo.
Por analogia, finalizo esse tema com as expressões enunciadas por Jesus enquanto instruía Nicodemos (o príncipe dos judeus), acerca do novo nascimento: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16).
Maranata!

Por Rubens Britto

(Teólogo, escritor, jornalista, radialista, pós-graduado em Comunicação, palestrante, fundador e diretor geral da Rádio Gospel Caiobá e do Jornal Lagoa News).

E-mail: pastorbritto@hotmail.com

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