Patrimônio cultural do Afeganistão corre risco com Talibã no poder

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Jornal Lagoa News
Françoise Foliot via Wikimedia Commons

Após a tomada de Cabul, capital do Afeganistão, pelo grupo islâmico Talibã no último dia 15, as preocupações da comunidade internacional se voltaram não só para os destinos das mulheres e crianças afegãs e dos cidadãos que colaboraram com forças estrangeiras ao longo dos quase 20 anos de ocupação, mas também para o inestimável patrimônio cultural do país.

Leia também: O que é Sharia, a lei islâmica que o Talibã diz aplicar no Afeganistão

Na última semana, Audrey Azoulay, diretora-geral da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), fez um apelo aos talibãs, “pela preservação da herança cultural do Afeganistão em sua diversidade, em respeito à lei internacional e protegendo o patrimônio cultural de danos e saques”.

O pedido da diretora se justifica pelas atitudes do Talibã durante o período em que o grupo governou o país, de 1996 até 2001, quando foi derrotado pela intervenção dos EUA e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Em março de 2001, eles explodiram duas estátuas gigantes de buda no vale de Bamiyan, que fica a cerca de 180 quilômetros a oeste de Cabul.

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Com 55 e 38 metros de altura, as duas estátuas escavadas na rocha e o sítio arqueológico ao redor foram considerados patrimônios da humanidade pela Unesco em 2003.  Os arqueólogos estimam que as imagens teriam sido construídas entre o fim do século 6 d.C. e o início do século 7 d.C.

Segundo relatos, o Talibã chegou a debater a destruição das estátuas por se tratarem de representações de divindades do budismo e cogitaram mantê-las intactas, pois não havia praticantes da religião entre a população afegã. No entanto, elas foram destruídas como uma espécie de vingança, segundo uma entrevista do líder talibã, o mulá Mohammed Omar, a um jornal paquistanês em 2004.

“Eu não queria destruir o buda de Bamiyan. Alguns estrangeiros me disseram que queriam fazer reparos na estátua, que tinha sido levemente afetada pelas chuvas. Isso me chocou. Eu pensei, essas pessoas não se importam com milhares de seres humanos, os afegãos que estão morrendo de fome, mas estão preocupados com a estátua. Achei isso deplorável e ordenei sua destruição. Se tivessem vindo para trabalho humanitário, nunca teria ordenado”, afirmou.

Proteção do patrimônio cultural

 

Criada em paralelo à ONU após a Segunda Guerra Mundial, a Unesco tem o papel de defender a educação, a saúde, os direitos humanos e o patrimônio cultural, segundo a historiadora Aline Vieira de Carvalho, professora de pós-graduação em História e pesquisadora no Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) da Unicamp.

Minaretes da cidade antiga de Herat ainda não estão sob proteção da Unesco

Minaretes da cidade antiga de Herat ainda não estão sob proteção da Unesco

Jalil Rezayee / EFE – Arquivo

“Quando a gente fala de patrimônio, fala de outras culturas, de diversidade religiosa, é pra isso que serve o patrimônio histórico. Ele nos dá a dimensão de que somos diferentes e essa convivência precisa ser preservada. Então quando você tem um grupo extremista no poder, com essa leitura muito estrita das leis religiosas, o temor é pelo apagamento dessa memória”, explica a historiadora.

No caso específico do Afeganistão, que fica na Ásia Central e pertenceu a um grande número de impérios ao longo da história, do grego, de Alexandre, o Grande, até o britânico, passando por Genghis Khan, entre outros, a herança cultural é algo precioso. Por isso, toda essa preocupação por parte de organizações internacionais e de especialistas. Para Aline, o Minarete de Jam também está em perigo e deveria estar protegido pela Unesco.

“O patrimônio do Afeganistão nos interessa porque é um território que tem uma história de milênios e que de certa forma foi um espaço de trânsitos culturais e de encontros culturais. No caso de Bamiyan há uma clara influência indiana. Por que há também a preocupação com o minarete e os restos arqueológicos de Jam? Porque eles já estão em perigo, estão numa área onde o conflito limpa a cultura e cria uma versão muito singular do passado”, alerta.

Segundo a pesquisadora da Unicamp, tentativas de resgate do patrimônio histórico podem ser observadas antes mesmo da criação da Unesco, quando obras de arte e livros foram salvos dos nazistas na Europa durante a Segunda Guerra. No caso de cidades históricas, como Herat, no Afeganistão, isso não é possível, mas em uma escala menor isso já está acontecendo no país.

“Temos informações que no Museu Nacional de Cabul, onde há mais de 800 mil peças de arte islâmica, todas manifestações de uma herança riquíssima, os funcionários estão retirando algumas obras para preservá-las. Essa estratégia já vinha sendo usada há muito tempo e está incluída na convenção de 1954, que foi criada para proteger o patrimônio cultural e histórico em áreas de conflito”, destaca.

No dia 15, funcionários do Museu Nacional publicaram uma nota no perfil da instituição no Facebook, falando sobre o caos na cidade em meio à invasão do Talibã. “Usando a oportunidade, criminosos saquearam propriedades públicas e privadas. Os funcionários e artefatos do museu ainda estão em segurança, mas essa situação caótica causa grande preocupação. Por isso, pedimos atenção para a segurança dos objetos desta instituição”, diz o texto.

Por tudo isso, o futuro do país, não apenas para seu povo, mas também sua herança cultural, está sob risco. Não apenas para a Unesco como para a comunidade científica.

“Acho que a grande questão do Afeganistão e a preocupação da Unesco é saber que o perigo dessa destruição, desse apagamento da memória, é absolutamente irreparável. Todos estamos muito preocupados também com a situação das pessoas, das crianças, mas também o direito ao território, à memória e ao pertencimento sendo perdidos. Tudo isso é desolador”, lamenta Aline.

Jornal Lagoa News
Paulo da Costa
Jornalista e escritor, repórter do Jornal Lagoa News.

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