No Amazonas, cientistas que pesquisam cloroquina recebem graves ameaças de adeptos do bolsonarismo

Ameaças de morte aos pesquisadores da cloroquina

Jornal Lagoa News

Após os resultados de pesquisadores em Manaus que mostrou a ineficácia da cloroquina em pacientes, apresentando um benefício “discreto” na ministração de doses baixas e que o uso do medicamento em doses altas apresentava “arritmias graves” podendo culminar no óbito, houve ameaças de morte aos pesquisadores pelos bolsonaristas. Vejamos os fatos em detalhes.

Com o rápido avanço dos recursos disponíveis nas redes sociais, a proliferação de mensagens inglórias tem solapado os sistemas políticos, sociais, emergentes e até mesmo aqueles que têm se desdobrado em tempos difíceis sacrificando-se na pesquisa diuturna em busca da cura de uma doença que solapa milhões de vidas no mundo.

Diversos departamentos de saúde, centros de estudos, pesquisas avançadas em setores públicos, privados, além de laboratórios de universidades em muitos países caminham coesos em busca de um medicamento que possa conter o novo coronavírus e, de modo emergencial, o desenvolvimento de uma vacina contra a pandemia do Covid-19.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem relutado no sentido de que a hidroxicloroquina seja aplicada amplamente nos pacientes infectados com o novo coronavírus, apesar de que as pesquisas ainda são inconclusivas, não há provas ou informações científicas que possam recomendar o uso desse medicamento. Os estudos avançam. Pesquisadores e cientistas brasileiros estão se empenhando nas investigações concernentes as prescrições da hidroxicloroquina que já demonstrou discreto benefício e grave risco de morte no caso do uso com alta dosagem.

Em Manaus, pesquisadores de um grupo de instituições, tais como: Fundação de Medicina Tropical (FMT), a Fiocruz, a USP e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), estão empenhados na pesquisa CloroCovid-19 que se desenvolve em mais de 80 pacientes hospitalizados em estado grave. Eles foram divididos em dois grupos de tratamento com a hidroxicloroquina, sendo que um grupo recebeu baixa dosagem (adota nos Estados Unidos); e outro, foi medicado com dose mais alta (adotada na China). O objetivo deste método foi verificar se há resultado ou ação benéfica da cloroquina em comparação com estudos internacionais de pacientes que em situações clínicas idênticas não usaram a cloroquina.

No dia 23 de março próximo passado, a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) aprovou o estudo dos pesquisadores manauenses e imediatamente deu-se início ao tratamento dos dois grupos de pacientes com a administração das dosagens da cloroquina. Após 14 dias de tratamento os pesquisadores mostraram os primeiros resultados: “os pacientes se beneficiaram discretamente da cloroquina”; porém, em “doses mais altas, o medicamento pode, sim, dar arritmias graves e levar à morte”.

Todavia, diante do sistema de saúde ineficaz, à beira do colapso, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), que financia as pesquisas com os recursos do estado em parceria com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), tentou passar a idéia de que a pesquisa teria apresentado resultados suficientes. Neste sentido, de modo inclusivo, o Jornal A Crítica, órgão de imprensa que tem prestado apoio ao governo do Amazonas, publicou a notícia: “Pesquisa Amazonense: Cloroquina diminui a taxa de letalidade”.

No mesmo dia, os pesquisadores suspenderam o tratamento com as doses mais altas aos pacientes por causa da “tendência de mais efeitos colaterais nos pacientes em uso de maior dose”. Portanto, dúvidas ainda estão pairando na aplicabilidade da cloroquina em pesquisas; de modo inclusivo, avaliando os trabalhos dos pesquisadores do Amazonas com onze mortes contabilizadas (pelo menos até a divulgação em 16/04) entre os pacientes tratados nos dois grupos que se submeteram a terapia farmacológica da hidroxicloroquina. Os óbitos, a maioria idosos, foram decorrentes da “toxidade” causada pelas doses altas, método usado nos pacientes chineses. As doses baixas mostraram índices “discretos” que, apesar dos tênues resultados, não causou desencorajamento a equipe de pesquisadores.

Ocorre que os resultados obtidos pelos pesquisadores amazonenses foram publicados e ganhou atenção da imprensa internacional. Até mesmo o reconhecido jornal americano The New York Times trouxe à evidência a pesquisa em apreço. O Jornal Folha de São Paulo publicou que “nos EUA e no Brasil, ativistas que, alinhados aos presidentes Donald Trump e Bolsonaro, defendem a cloroquina disseram que o estudo foi mal conduzido e até que tinha como motivo desacreditar o medicamento”.

Circunstancialmente, as pesquisas e debates passaram à fluência do argumento político e ideológico.  Diante de todas as questões delineadas e, possivelmente, se aproveitando da brecha trazida a lume pelos resultados da administração da cloroquina, as represálias se evidenciaram pelos adeptos do governo Bolsonaro que exige o tratamento da Covid-19 com a cloroquina e, assim, levantaram-se contra os pesquisadores do Amazonas impingindo-lhes severos castigos e, quiçá, ameaçando os de morte. Um efeito deletério gravíssimo diante de uma pandemia de proporções internacionais.

A polícia do Amazonas está investigando as ameaças de morte que pessoas escondidas no anonimato e com manifestos apoios ao governo de Jair Bolsonaro estão passando para os pesquisadores a fim de causar-lhes medo diante do célere trabalho de investigações ao uso da cloroquina que tem apontado evidente ineficácia.

“Filho da puta maldito, deve ser espancado quando pisar na rua!!” e “Assassino comunista fdp” – essas são algumas das ameaças que cientistas do Amazonas estão recebendo nas redes sociais, de perfis bolsonaristas fakes.

Jornal Lagoa News
Rubens Britto

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