Maioria dos fabricantes brasileiros de cloroquina não recomenda o remédio para covid-19

maioria-dos-fabricantes-brasileiros-de-cloroquina-nao-recomenda-o-remedio-para-covid-19
Jornal Lagoa News
Durante a posse do ministro da saúde, em setembro, o presidente Jair Bolsonaro mostra uma caixa do remédio hidroxicloroquina da Apsen (Foto: Carolina Antunes/PR)

Das seis farmacêuticas que fabricam cloroquina ou hidroxicloroquina no Brasil, quatro não recomendam o remédio para tratar a covid-19. Essa maioria foi formada após a Apsen, principal fabricante de hidroxicloroquina do país, se posicionar contra o uso pela primeira vez desde abril, quando a empresa divulgou estudos que supostamente indicavam a melhora de pacientes por causa da cloroquina.

A mudança de posicionamento da Apsen Farmacêutica aconteceu na quarta-feira (3), mais de quatro meses depois de a OMS rejeitar de forma conclusiva o medicamento para este fim e após a Repórter Brasil entrar em contato com a empresa para questionar sobre dois contratos de empréstimo assinados com o BNDES em 2020, que somam R$ 136 milhões. Deste total, R$ 20 milhões já foram desembolsados pelo banco, mas para investimento em inovação – o contrato não permite investir em medicamentos antigos, como a cloroquina, que a Apsen produz há 18 anos.

Outros três laboratórios – Farmanguinhos/Fiocruz, EMS e Sanofi-Medley – já haviam divulgado comunicados no qual recomendavam o fármaco apenas para doenças previstas em bula, ou seja, malária, lúpus e doenças reumáticas.

Já os dois laboratórios restantes na lista dos fabricantes do medicamento, Cristália e Laboratório do Exército, não se posicionam de forma clara contra o uso do remédio para a covid, mantendo aberta a possibilidade de que a cloroquina ou a hidroxicloroquina sejam usadas no tratamento dos infectados pelo novo coronavírus.

A fábrica militar alegou que, por ser apenas um “órgão executor”, não tem competência para opinar sobre a eficácia do medicamento que produz. Já o Cristália afirmou que a cloroquina é recomendada para malária e outras doenças, mas não descartou o uso para covid, dizendo que “qualquer recomendação fora das especificadas na bula deve ser feita sob responsabilidade do médico, como ocorre com qualquer medicamento”.

Além das farmacêuticas citadas, ainda há o caso da Eurofarma, que conseguiu o registro na Anvisa em agosto de 2020, mas afirma que não fabricou nem comercializou a cloroquina desde então.

Faturamento recorde

A Apsen é a maior beneficiada pela comercialização recorde do medicamento em 2020. Segundo o Sindusfarma, o faturamento das empresas com o remédio foi de R$ 91,6 milhões em 2020, ante R$ 55 milhões em 2019 (alta de 66%). O Conselho Federal de Farmácia vem alertando para vendas desenfreadas da medicação desde o início da pandemia.

As vendas do remédio ajudaram a Apsen a alcançar faturamento recorde em 2019: próximo de R$ 1 bilhão, 18% a mais em relação ao ano anterior.

Na fase inicial da pandemia, em março de 2020, a empresa divulgou mensagem em rede social dizendo que “apesar de promissores, não existem estudos conclusivos que comprovam o uso para o tratamento da covid-19”. Já em abril, a Apsen publicou uma nota em que apontava a medicação como possível “cura” para a doença. Naquele momento, ainda não existiam estudos científicos conclusivos que descartavam a droga para a covid-19.

A empresa voltou a se posicionar oficialmente sobre o tema na última quarta-feira, quando divulgou em seu site que, “com base nas evidências científicas atuais, a Apsen recomenda a utilização da hidroxicloroquina apenas nas indicações previstas em bula [ou seja, malária e doenças reumáticas]”.

A Fiocruz, que comanda o laboratório Farmanguinhos, emitiu os primeiros alertas contra o uso da medicação na pandemia em abril do ano passado, após um estudo do qual participava ser interrompido precocemente, depois de pacientes apresentarem maior risco de complicações cardíacas. A instituição fabrica cloroquina para o programa nacional de combate à malária. Porém, o Ministério da Saúde usou os estoques da Fiocruz para distribuir o remédio no SUS para o suposto tratamento precoce da covid-19.

A Sanofi-Medley afirmou à Repórter Brasil que não há uso aprovado de seu produto para tratamento da covid-19 em nenhum lugar do mundo, recomendando o medicamento somente para a indicação em bula.

Já a EMS disse, via assessoria de imprensa, que não recomenda o medicamento para o tratamento da covid-19. A empresa também recebeu empréstimos do BNDES em 2020, no total de R$ 23 milhões. Um dos contratos prevê a construção de uma fábrica de medicamentos oncológicos. O outro permite a aplicação de recursos em medicações antigas da empresa, já que se destina à “ampliação e reforma de unidade industrial, incluindo produção de medicamentos, linhas de embalagens e almoxarifado, no complexo industrial da EMS, em Hortolândia (SP)”. A empresa foi questionada se os recursos foram usados para ampliar a produção do remédio e respondeu que “nenhum pedido [de empréstimo] teve relação com a produção de sulfato de hidroxicloroquina” (veja o posicionamento completo das empresas).

Falta de evidência científica

(Ilustração: Angelo Abu)

As vendas de hidroxicloroquina bateram recorde em 2020 após se tornar o carro-chefe do governo brasileiro para enfrentar a covid-19. Só em farmácias foram comercializadas 2 milhões de unidades (com pico em dezembro) – alta de 113% no ano em comparação a 2019, segundo o Conselho Federal de Farmácia.

Além de distribuir cloroquina no SUS, o Ministério da Saúde incentivou a automedicação, por meio de um aplicativo e em campanha publicitária, e adotou um protocolo clínico, batizado de “tratamento precoce”, que recomenda a droga no estágio inicial da doença.

Em março de 2020, a OMS (Organização Mundial da Saúde) deu início ao Estudo Solidariedade, para avaliar a eficácia de alguns medicamentos contra a covid-19, incluindo a cloroquina e a hidroxicloroquina. O ensaio chegou a ser paralisado provisoriamente, em maio, por dúvidas com relação à segurança dos medicamentos, e, em 17 de junho, foi interrompido de forma definitiva, após ficar demonstrado que a droga não reduzia a mortalidade de pacientes com covid-19.

Em outubro, a OMS divulgou o resultado final da avaliação, realizada com mais de 11 mil pessoas em 30 países: tanto os compostos com cloroquina como o antiviral remdesivir apresentaram “pouco ou nenhum efeito” sobre a mortalidade por covid-19.

A Organização Mundial de Saúde continuou estudando o assunto para se certificar dos efeitos da cloroquina sobre a doença e, na semana passada, um painel de especialistas parece ter enterrado de vez a questão. Após revisar seis ensaios clínicos com 6.000 pessoas, os especialistas concluíram que a hidroxicloroquina não influencia as taxas de infecção e, provavelmente, aumenta o risco de efeitos adversos, como problemas cardíacos. “A hidroxicloroquina não é mais uma prioridade de pesquisa”, afirmou o painel.

Na avaliação de Nelson Mussolini, presidente-executivo do Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo), não se deve tomar medicamentos para o que não está registrado. “Nosso negócio é baseado em ciência”, diz. “O uso off-label (fora da bula) só se justifica quando existem novas indicações terapêuticas baseadas na prática médica e na ciência”, completa.

“A indústria farmacêutica investe bilhões de dólares para demonstrar a eficácia de seus produtos. Por isso, todos os medicamentos aprovados e registrados pela Anvisa para uso no país têm eficácia comprovada para as indicações terapêuticas de suas bulas, devendo ser consumidos de acordo com as prescrições e orientações de médicos, farmacêuticos e demais profissionais de saúde habilitados; o uso off-label só se se justifica quando existem novas indicações terapêuticas baseadas na prática médica e na ciência”.

O post Maioria dos fabricantes brasileiros de cloroquina não recomenda o remédio para covid-19 apareceu primeiro em Repórter Brasil.

Jornal Lagoa News
Rubens Britto

DEIXAR UM COMENTÁRIO

Política de moderação de comentários: A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro ou o jornalista responsável por blogs e/ou sites e portais de notícias, inclusive quanto a comentários. Portanto, o jornalista responsável por este Portal de Notícias reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Não serão aceitos comentários anônimos ou que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal e/ou familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Este é um espaço público e coletivo e merece ser mantido limpo para o bem-estar de todos nós.