Guerra Fria

Ricardo Cappelli

Jornal Lagoa News

“Militares fizeram circular que ninguém vai dar um golpe a favor do presidente, nem contra ele. Toffoli apagou de vez a fogueira criticando o ativismo judicial de Alexandre de Moraes”, diz o colunista Ricardo Cappelli. “Como nenhum dos lados possui força suficiente para lançar o míssil nuclear, as provocações vão escalando, mas ninguém aperta o botão vermelho”

A postura de Bolsonaro no último domingo foi uma manobra defensiva. Após derrotas sucessivas no judiciário, o capitão sentiu que precisava reagir.

O ministro Celso de Mello ignorou a possibilidade de Moro ser denunciado por calúnia, presente na petição do procurado geral da República. Autorizou apenas a abertura de inquérito para apurar as denúncias contra o presidente.

O ministro Alexandre de Moraes determinou que os delegados do inquérito das fake news não fossem mudados. Em seguida, suspendeu a nomeação de Ramagem para a direção da Polícia Federal.

Foi a vez de Celso de Mello novamente entrar em campo e determinar que Moro fosse ouvido pela PF no prazo máximo de cinco dias. Uma manobra para que o depoimento acontecesse antes que Bolsonaro nomeasse o novo Diretor Geral.

Na sequência, Barroso deferiu liminar impedindo a expulsão dos diplomatas venezuelanos.

O STF agiu porque é vitima constante de inaceitáveis difamações e agressões vindas do “núcleo ideológico” do governo.

Logo após o incêndio, os bombeiros entraram em campo. O ministro da Defesa, ex-assessor de Toffoli no STF, fez uma “tabelinha” com o presidente do Supremo.

O general soltou uma nota reafirmando o compromisso com a democracia. Militares fizeram circular que ninguém vai dar um golpe a favor do presidente, nem contra ele. Toffoli apagou de vez a fogueira criticando o ativismo judicial de Alexandre de Moraes.

Guerra Fria é assim. Como nenhum dos lados possui força suficiente para lançar o míssil nuclear – nem consegue prever com segurança qual seria o desfecho -, as provocações vão escalando, mas ninguém aperta o botão vermelho.

Rodrigo Maia já deixou claro que não pretende colocar um impeachment em sua biografia. Não esquece os destinos de Ibsen e Cunha, algozes de Collor e Dilma. Também não é bobo, sabe que os pedidos de impedimento em sua mão são um valioso “seguro”.

Com o refugo do presidente da Câmara, sobra como “noiva” de um eventual impeachment o PGR. Por que ele denunciaria o presidente? Circula que Augusto Aras deseja a vaga no STF. Surgirão duas. A indicação é de Bolsonaro. Ou de Mourão. Vale o risco?

O fenômeno de derretimento das democracias liberais parece ser global. O curioso é que por aqui governo, oposição e instituições participam deste “esforço”. Bolsonaro milita por isso, é o sócio majoritário, mas todos possuem algumas “ações”.

A democracia é uma abstração inventada pela espécie capaz de acreditar e cooperar em torno de coisas que não existem. Quando a regra muda de acordo com as conveniências, ou ela se mostra incapaz de resolver os problemas concretos da vida das pessoas, o pacto social que sustenta a abstração pode estar em risco.

No Oriente, onde a covid-19 foi controlada com maestria, outras formas de governo “vão muito bem, obrigado”. A principal potência do século XX triunfou possuindo apenas dois partidos políticos. Existe apenas um na gigante emergente do século XXI. Sinal dos tempos?

Leia também:

Brasil registra recorde de 600 mortos por Covid-19 em 24 hs

Falta de testes dificultou combate ao coronavírus no Brasil, aponta pesquisa da Fiocruz
Bolsonaro manda jornalistas calarem a boca e chama Folha de jornal patife e mentiroso (vídeo)
Ex-presidente FHC alerta: Ditadura pode voltar
Por que a educação deveria parar na quarentena, por Alexandre Filordi
Jornal Lagoa News
Rubens Britto

DEIXAR UM COMENTÁRIO

Política de moderação de comentários: A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro ou o jornalista responsável por blogs e/ou sites e portais de notícias, inclusive quanto a comentários. Portanto, o jornalista responsável por este Portal de Notícias reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Não serão aceitos comentários anônimos ou que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal e/ou familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Este é um espaço público e coletivo e merece ser mantido limpo para o bem-estar de todos nós.