Cientistas se desdobram em busca de antivirais e vacinas contra o novo coronavirus

Cada pessoa infectada pelo coronavírus gera em média mais dois ou três casos

Jornal Lagoa News

Os cientistas já têm mais que o genoma do 2019-nCoV, que foi decifrado pela Escola de Saúde Pública de Xangai e divulgado no GenBank, um banco de dados de acesso aberto. Eles dispõem do próprio vírus isolado em cultivo celular. “A gente consegue produzi-lo em laboratório em quantidade suficiente para pesquisar antivirais e uma vacina. É como se fosse uma domesticação do vírus, que já está sendo feita na China”, diz Paulo Brandão, ao explicar que isso não é algo demorado de fazer desde que utilizados cultivos celulares corretos. Neste caso, estão sendo usadas células respiratórias humanas – e tem dado certo.

A partir daí, explica o virologista, “tendo a estrutura do vírus e de suas proteínas, e com um banco de dados de estruturas de antivirais, podemos usar simulações em computador para fazer boas predições. Conseguimos ver, por exemplo, se um antiviral vai bloquear uma proteína que atua fortemente na replicação do vírus, e testá-lo em laboratório.” Ele lembra que a pesquisa de antivirais hoje foi muito acelerada por técnicas de bioinformática: dá para ver como o vírus se casa com o antiviral antes de desenvolver um modelo biológico em laboratório, que leva tempo. “Até o momento, não se tem um antiviral que funcione bem contra os coronavírus em humanos, mas ele está sendo buscado, e precisamos continuar fazendo isso”, diz.

Outro caminho para tratamento é a produção dos chamados anticorpos monoclonais. A empresa Vir Biotechnology, de São Francisco (EUA), anunciou ter uma biblioteca destes anticorpos que demonstraram eficiência contra os coronavírus causadores da Sars e da Mers em testes de laboratório.

Há ainda o relato de caso tratado com um coquetel de drogas contra o HIV e que apresentou melhora. Ensaios clínicos de fase 3 (a última etapa obrigatória de testes antes de uma possível comercialização das drogas) começam nesta segunda (3) no Hospital de Amizade China-Japão em Pequim.

Mas e a vacina? Se com as técnicas atuais, sequenciar o genoma é uma questão de horas, e isolar o vírus em cultivo, de dias, para uma vacina ser liberada pode-se levar de meses a anos. “Vacinas para humanos têm exigências bem restritas, com várias fases de testes de segurança e eficácia”, explica Brandão. Somado a isso, há os entraves financeiros: nem sempre laboratórios comerciais, que podem produzir uma vacina em larga escala, se interessam. No caso do Ebola, por exemplo, foram 20 anos até o anúncio de que uma vacina está disponível – que ocorreu há poucos meses.

Por outro lado, grupos de cientistas já começaram um trabalho intensivo atrás da vacina para o 2019-nCoV, e pode ser que tenhamos algo em mãos em tempo recorde. O Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês), um dos maiores centros de pesquisa do mundo, anunciou que deverá começar os ensaios clínicos de uma vacina contra este coronavírus em até três meses. Anthony Fauci, diretor do NIH, afirmou à Agência Reuters que o prazo estabelecido é o mais rápido já dado pelo instituto em sua história.

A  empresa Novavax, de Maryland (EUA), já tem uma vacina em desenvolvimento contra a Mers, e diz que agora está trabalhando também em uma para o novo coronavírus. Além disso, na Universidade de Queensland (Austrália), os cientistas estudam uma abordagem vacinal chamada “grampo molecular”. A pesquisadora do Instituto de Química (IQ) da USP e do Centro Redoxoma Laura de Freitas explica que o coronavírus, como o influenza, é um vírus envelopado: o material genético deles fica protegido por um envelope de lipídeos e proteínas. As proteínas são usadas para que o vírus se ligue na célula e consiga abrir a porta para entrar. São essas proteínas que o sistema imune identifica como estranhas e começa a gerar uma resposta – os lipídeos o vírus rouba da célula que ele estava infectando. “A gente consegue então produzir essas proteínas em laboratório e usar para fazer uma vacina. Pense nas proteínas como se fosse um novelo de lã. Se você tentar usar um novelo emaranhado para fazer tricô, pode até funcionar, mas vai estar cheio de nós que te atrapalham e vai demorar. Não funciona tão bem. Mas se você tem um novelo organizadinho, o tricô sai super rápido. Esse grampo molecular é como se fosse um organizador do novelo, garantindo que as proteínas virais feitas em laboratório estejam com uma organização que o sistema imune é capaz de reconhecer”, simplifica a farmacêutica.

A técnica já mostrou resultados promissores em testes com outros vírus, como o da Sars.

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Rubens Britto

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