Brasileiros contam como o Japão lidou com a pandemia de covid-19

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Alguns e bares e restaurantes dispensaram o auxílio e funcionam normalmente no Japão Alguns  bares e restaurantes dispensaram o auxílio e funcionam normalmente no Japão -Kimasa Mayama / EFE – EPA – Arquivo

No Japão, país com a décima maior população do mundo, uma lei impede o governo de implementar medidas como uma quarentena nacional. Essa limitação poderia ser a receita para um desastre durante a pandemia de covid-19 e resultar em uma grande quantidade de infecções e mortes, mas, o país está em uma situação mais confotável do que outras nações.

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Em números absolutos, o país de 126,5 milhões de habitantes tem o 39º maior número de casos da doença no mundo, 445 mil, e o 40º maior em mortes, com 8,5 mil. Em termos proporcionais, o resultado é ainda melhor: o país é o 143º do mundo em casos por milhão de habitantes e o 131º em mortes por milhão. E a vacinação ainda está no início.

O que explica esses números? Boa parte da população já é adepta do uso de máscara há anos, por conta de surtos de gripe e da poluição. E apesar do governo, por lei, não poder implementar um lockdown, o distanciamento social é algo naturalizado na sociedade japonesa, assim como seguir à risca as orientações das autoridades, especialmente as sanitárias.

O país também está com as fronteiras fechadas desde dezembro de 2020 e só permite a entrada de cidadãos japoneses ou de estrangeiros com residência permanente.

Para entender melhor está sendo a vida no país durante a pandemia, o R7 conversou com duas brasileiras que vivem do outro lado do mundo há anos.

Uma nova vida

 

Para a paulista Amanda Hirashima, que vive em Aichi, no interior do país, o início da pandemia coincidiu com uma mudança em sua vida. Ela estava nas últimas semanas de gravidez quando a covid-19 chegou ao Japão. A pequena Maria nasceu em 26 de fevereiro, no mesmo dia em que algumas das restrições feitas pelo governo, como o fechamento das escolas, começaram a vigorar.

Maria nasceu no dia em que as restrições começaram no Japão

Maria nasceu no dia em que as restrições começaram no Japão

Arquivo pessoal

“Foi bem quando eles começaram a restringir visitas no hospital. O pai dela ainda conseguiu assistir ao parto e dormir a primeira noite lá, mas depois disso ele só podia visitar durante o dia e não era mais permitido dormir. Só ele e meus outros filhos podiam visitar, meus pais, por exemplo, não tiveram permissão”, conta Amanda, que passou cinco dias no hospital.

Quando voltou para casa, tudo estava diferente. A filha mais velha, de 9 anos, e o filho mais novo, então com 4 anos, não podiam mais ir para a escola e para a creche. Logo, o marido perdeu o emprego. Ela já estava sem trabalho desde o início da gravidez, pois estava no meio do aviso prévio do emprego como soldadora em uma fábrica.

“Ficamos basicamente em 5 pessoas com o seguro-desemprego dele”, lembra a brasileira. Ela não tinha tempo suficiente de contribuição no antigo emprego para pedir o benefício. Com ajuda de um auxílio-aluguel da prefeitura e um auxílio equivalente a 1 mil dólares, cerca de R$ 5,5 milm, pago pelo governo japonês, a família conseguiu se manter.

“As pessoas me perguntam sobre a pandemia aqui e na verdade, o único momento que eu senti o impacto foi quando meu bebê teve suspeita de covid-19. Foi desesperador. No resto a cultura de usar máscara, álcool em gel nas portas dos estabelecimentos, isso sempre existiu, porque até então a principal preocupação aqui era a influenza. Porque ela significa 1 semana de molho, e o Japão não pode parar”, explica Amanda.

Mudança de rumos

 

Há 5 anos, a sul-matogrossense Kátia Imai vive em Azabujuban, um dos principais distritos da vida noturna de Tóquio e viu de perto como a pandemia acabou com o turismo na região e fechou diversos estabelecimentos como bares e restaurantes. Em alguns deles, ela trabalhava fazendo bicos, uma forma comum para estrangeiros ganharem a vida.

Kátia (centro) vende comida brasileira em Tóquio

Kátia (centro) vende comida brasileira em Tóquio
Arquivo pessoal

“Aqui está quase tudo parado, o movimento despencou. O governo dá um auxílio para esses lugares, mas eles precisam fechar obrigatoriamente às 20h. O dinheiro vai todo para o dono e alguns deles dão um auxílio pros funcionários que ganham por hora e acabam trabalhando menos, mas não são todos. Tem dois ou três lugares que os donos dispensam o auxílio e aí funcionam até a madrugada”, conta Kátia.

Como no setor a maior parte dos trabalhadores não possui vínculo empregatício, muitos acabam dependendo apenas do auxílio do governo japonês. Em outras áreas, como na construção cívil, o trabalho segue normalmente. Para não ficar sem trabalho, Kátia decidiu se dedicar mais à gastronomia e agora vende bentôs, uma marmita japonesa, mas de comida típica brasileira.

“Hoje, com tempo, consido me dedicar mais a isso. Vendo bentôs de pratos como feijoada, baião de dois, acarajé, bobó, arroz carreteiro, escondidinhos, feijão tropeiro. Também faço alguns eventos como uma feijoada nas tardes de domingo no bar de uma amiga. Tóquio não tem muitos brasileiros, mas as pessoas procuram, é difícil encontrar essa comida aqui”, explica.

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Assim como Amanda, Kátia também acredita que os hábitos já arraigados na cultura local ajudaram a manter a baixa transmissão, mesmo sem quarentena. “As pessoas usam máscaras, evitam contato social, limpam as mesas delas nos restaurantes. O que ajudou foi isso. E cumprir as orientações mesmo, não tem isso de você apanhar porque pediu para alguém usar máscara”, ressalta.

A vacinação contra covid-19 começou no Japão em 18 de fevereiro, mas até agora não decolou. Para quem vive há muito tempo no país, como Kátia, a causa disso é a burocracia. “A liberação demorou mais de dois meses, mas isso é normal, essas coisas demoram”, destaca.

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